quarta-feira, 1 de abril de 2015

Tintas enamel - Parte 1



INTRODUÇÃO

Quando comecei no modelismo há exatos 40 anos atrás não havia a variedade de insumos que se encontra nos dias atuais. A pintura, por exemplo, era um quesito totalmente opcional (especialmente para os moleques da minha idade) e não era incomum encontrar modelos "prontos" inclusive com decais aplicados e sem uma gota de tinta sequer. Eu mesmo tive uma coleção inteira de aviões da WW2 na escala 1/144 que nunca viram pintura.

Mas bastava a gente avançar um pouco na prática do modelismo para logo perceber que a tinta já não era algo assim tão dispensável. Apesar de eu não poder afirmar com certeza, tenho sérias suspeitas que já naquela época o pessoal lá de fora tinha à disposição as tintas acrílicas da Tamiya e outras em uma extensa paleta de cores e tons. Já no Brasil dos anos 70 a escassez era imensa e tudo que existia para nós modelistas tupiniquins era um estojinho mixuruca da Kikoler com alguns vidrinhos de tinta esmalte em cores básicas e que custava o olho da cara.

Novamente, enquanto os gringos se esbaldavam com os aerógrafos aqui a coisa andava no passo do pincel. Naquele tempo, aerógrafo no Brasil era ferramenta CARA de artista gráfico. Me lembro de ver aquele artefato curioso (e que eu não entendia ainda direito o que era) na vitrine da Casa Cruz no centro de Niterói. Vinha em um elegante estojo de madeira e custava o que seria hoje algo em torno de R$ 1000 ou mais.


DESCOBRINDO AS TINTAS

Mas a falta do acesso ao aerógrafo não diminuía em nada a diversão. E curiosamente, hoje, olhando para trás, a lembrança que eu tenho dos meus modelos pintados não é tão ruim assim. Mas voltando às tintas, sendo o brasileiro inventivo como é, não demorou muito para que alguns modelistas descobrissem que as famosas tintas "Coralit" — aquelas latinhas de tinta da Coral usada para pintar portão — tinham a mesmíssima performance que as Kikoler. É lógico, pois ambas são a mesmíssima coisa: tinta "enamel", ou como a gente conhecia por aqui, esmalte sintético. Ou ainda melhor, como a gente pedia na casa de ferragens, "tinta à óleo" (que não tem absolutamente nada a ver com tinta à óleo usada para pintar quadros).

O tempo passou, quatro décadas ficaram para trás (é... estou ficando velho...) e ainda hoje os esmaltes sintéticos continuam sendo os meus prediletos. Embora exista atualmente disponível no mercado um sem número de diferentes formulações de tintas acrílicas, lacas, automotivas e outras, ainda considero o enamel a melhor opção principalmente para o modelista que não pretende se tornar um expert em uma determinada tinta, o que, em geral, demanda uma curva de aprendizado longa e recheada de muita frustração.

O que quero dizer é que até o modelista mais inexperiente e iniciante consegue obter resultados impecáveis logo na primeira tentativa com o esmalte sintético, pois é uma tinta muto fácil de trabalhar e que não exige auxiliares ou técnicas especiais como as outras.


PROMOTOR DE ADERÊNCIA? NAH...

Vamos ver algumas vantagens do enamel em relação às outras tintas. Por exemplo, algo que eu gosto muito no enamel é a absoluta desnecessidade dos famosos "promotores de aderência". Se você pretende utilizar tintas como lacquer, duco, PU e a maioria da acrílicas saiba que antes de pensar em deitar uma gota de tinta sobre o seu modelo, terá que aplicar uma camada sobre o mesmo cuja função é tão somente impedir que a pintura descasque depois. O enamel não precisa disso pois agarra que nem o diabo em qualquer superfície, e é o que os americanos chamam de "bite" e aqui no Brasil chamamos de "mordedura" ou "ancoragem". Você vai querer utilizar uma tinta com uma boa mordedura, especialmente naqueles trabalhos em que você tem que aplicar uma fita de mascaramento para uma segunda camada de cor diferente sobre a anterior e vai entender bem o que eu estou falando na hora que for remover a fita: nas tintas com baixa ancoragem, pedaços da pintura são arrancados junto com a fita o que é MUITO frustrante. No enamel isso raramente vai acontecer.


FÁCIL SOLUBILIDADE

Outra vantagem do enamel é a flexibilidade do mesmo em relação ao solvente. Praticamente você pode usar QUALQUER aguarrás disponível no mercado e não terá problemas. Na verdade você pode até usar querosene! Já no caso das automotiva e lacas, que usam thinners, o problema é que thinner não é tudo a mesma coisa. Primeiro que a palavra "thinner" é um termo genérico para designar solvente. E segundo, que mesmo entre as automotivas e lacas, dependendo do fabricante o solvente (ou thinner) tem que ser específico significando que se você usar um que seja impróprio irá arruinar seu trabalho.


DILUIÇÃO INDULGENTE

Ainda falando sobre o solvente, em geral você tem que ser muito detalhista na hora se diluir a sua tinta para colocar no aerógrafo, ou seja, qualquer quantidade a mais ou a menos a performance da tinta vai para o espaço. Já com o enamel não: existe uma faixa relativamente larga para sua fluidez em que a tinta vai trabalhar bem, ou seja, mesmo estando um pouco mais grossa ou mais fina do que o ideal, ainda assim ela não vai lhe dar problemas.


LIMPEZA DO EQUIPAMENTO

Outra questão importante fica por conta da limpeza do seu aerógrafo. Com o uso do aguarrás, uma boa retro-lavagem com aguarrás e um cotonete embebido no mesmo, você faz o serviço de higienização com um pé nas costas e em menos de um minuto, deixando ele prontinho para a próxima sessão de pintura ou para voltar para o estojo. Eu tentei no passado utilizar tintas acrílicas e embora até tenha sido bem sucedido em ALGUMAS tentativas, algo que sempre me causou muitos problemas foi a quantidade de resíduo que as mesmas deixavam dentro do aerógrafo, por vezes grudando e travando o mecanismo todo e me obrigando a fazer uma desmontagem total do equipamento. Alguns tipos de tinta automotiva que utilizam catalisador na mistura podem ser ainda mais perigosas pois depois que secam nem o próprio thinner remove mais, o que significa que uma limpeza mal feita pode resultar na inutilização e perda definitiva do seu aerógrafo.


TOXIDADE

Finalmente, tem ainda a parte da toxicidade da tinta, especialmente se você pratica o modelismo com muita frequência. Tintas como lacquer e automotivas são bastante tóxicas (nesse quesito a acrílica é imbatível!) e o cheiro forte costuma empestar os ambientes. No caso do enamel, embora o aguarrás ainda tenha um cheiro um pouco forte e capaz de impregnar o local, o mesmo não é tão agressivo como os outros solventes e se desfaz de forma relativamente rápida. Também, existe um aguarrás com cheirinho de limão fabricado pela Acrilex chamado Ecosolv que melhora em muito essa situação. Pessoalmente eu não uso o Ecosolv (já usei, é bom e eu recomento) por causa do preço dele que é muito alto em relação aos aguarrás tradicional. Atualmente eu dou preferência ao fabricado pela Natrielli.


O QUE VEM POR AÍ

No segunda parte desse artigo, falaremos sobre as tintas enamel encontradas no mercado e farei um breve comparativo entre as marcas específicas existentes para modelismo como Humbrol, Revell, Testors e Model Masters, bem como também as "genéricas" que podem ser adquiridas em casas de ferragem ou loja de tinta da esquina.

Até!

3 comentários:

  1. Muito boa a explicação, ainda mais pra um leigo nesta tinta (meu caso).

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  2. Muito bacana esclareceu minha dúvida sobre as importadas e a boa e velha Suvinil e Cia! Uma pergunta. Posso catalisar essas tintas com algum produto sem perder a qualidade!

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  3. Ainda tenho duvidas em relação a limpeza de produtos com contato com o enamel. Exemplo, como realizar a limpeza de uma superfície em aço inox

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